sexta-feira, 29 de abril de 2011

DR


Ontem lavamos a roupa suja
pus sabão, tu puseste água
batemos e esfregamos
tanta força em mantê-las limpas
teu cheiro se foi com a água
vestimos a alma lavada
nossa sujeira foi escondida
mas continuamos despidos
porque há tempos nos despedimos
das nossas carapuças
nas nossas escaramuças

Imagem: Herbert Baglione

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sinto muito



Qual o sentido? 
eu queria um norte
e olhei para a placa
e na placa, aquela seta
não devia estar correta

Então...
qual o sentido?
molhei o dedo na boca
esperei o vento soprar
gosto de pastel
mas o vento morreu
e meu dedo me... 

Então...
qual o sentido?
respirei, humm,  pão de queijo!
talvez de uma cantina
mas fome não havia
se houvesse até que eu ia

Então...
qual o sentido?
ouvi o barulho do quartel
inspeção do coronel
e o soldado atrasou
e não gostei, muito cruel

Então...
qual o sentido?
quando escureceu
tropecei na maldita pedra
aquela, do caminho
e xingando o tombão
porque estava lá a pedra
e o sentido não

Então...
Andei sem sorte
e sem destino
mas nem a sorte
nem a arte
se atinaram ao perigo
que se move à contra parte
disfarçando de fininho
a vontade de explicar
o que dizia o pergaminho
e a correria que eu fiz
como herói sem nem ter sido
com a razão sem nem ter tido
nessa dança sem sentido

Imagem: Isaac Cordal

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Trava lírica


Setenta e dois com sete
setenta e nove, errei.

Sempre preferi os pares,
mas sempre quis ser ímpar.

Sem pré,
pré feri os pares
mas não fui capaz,
apenas quis ser ímpar.

Testei dois versos
detestei o resultado.

Testei dois, veja só,
e de ré foi exultado.

Atestado o meu dilema
que agora já é problema
talvez mental, talvez poema

encerro a equação,
que no final não foi em vão,
com um igual ou interrogação

Imagem: Lead Pensil Studio

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Lar dos desejos



Para quem ama
nada pior
que a solidão
da cama

Imagem: fucknfilthy.com

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dia é nome de Sereia



Noite vaga, noite ébria
cujo andar se demora
no seu silêncio me entrega
o aguardar da aurora

Noite calada, noite megera
tua solidão apavora
tua tristeza não nega
e tua beleza devora

Em cada lampejo de escuro
sobrepõe uma brisa fresca
dedilhados do ar mais puro
impedindo que o dia aconteça

Acorde menino inseguro
acorde antes que enlouqueça
especros feios de olhares duros
confundem a sua cabeça

Acorde e se entregue ao dia
deixe que esquente com calma
com luz e calor a vazia
frieza da sua alma

Dia de sol, de cabelos dourados
ilude os olhos famintos
com cores de todos os lados
pintando em aquarela um labirinto

Dia claro, dia quente
que a minha tristeza nega
cujo brilho esconde contente
a dor da alma e a mantém cega

Imagem: Titi Freak