quarta-feira, 30 de junho de 2010

Morte e vida na hora do rush

Salpicam entre o dourado penetrante
pedaços de coisas em movimento exuberante
do vapor quente que sobe ao nariz
aos que repousam finalmente ao plúmbeo-gris

Visão de monotonia plácida que jaz
nos vultos lentos a passar em falsa paz
choca-se em meio a música repentina e chuvosa de sapatos
em saltos úmidos frustrados se livrando de regatos

E em tarde quente cujo fim se aproximava
do fim da gente ou mais um fim de uma jornada
sobrando em frente a mudez noturna desesperada

Do tédio de ver a vida passar
Na esperança de uma luz abri um livro
Mas desisti, tomei coragem de viver e abri o vidro

terça-feira, 29 de junho de 2010

Cinza

Não há poesia
quando tudo o que se vê
ouve, toca e sente
está cinza

terça-feira, 22 de junho de 2010

Zom in, Zoom out

Em se supor,
suponho que
o mundo ora dista
e ora se acerca

De fato,
sem nada,
vivemos tudo
no mesmo momento

E o embalo das horas
inexorável
faz-nos caminhar
como escravos do tempo

Prazer te encontrar
conhecer, esquecer
apaixonar
dando sentido ao que é viver

Fotos, figuras,
marcas e rastros
e cicatrizes
de amores gastos

Manias,
fescuras
de outros dias
em partes iguais

Nunca vistas,
e sempre aparentes,
revelam marcas
dos seus ancestrais

Seguindo seu rumo
sem norte, sem prumo
no caos e na ordem
do cerne de tudo

Entorta-se a vista
adequa-se a fonte
segue o padrão
que devora a gente

Num dia ou no outro
vive-se o máximo
doa-se o mínimo
chora contente

O prazer deslavado
de usar mal usado
cada trocado,
doado do tempo

Sem garbo,
requinte ou luxo
ignorando tudo,
pois viver é efêmero

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Alívio

Suspira o coração
ao desascelerar
do topo de seu pulsar
após o susto de um trovão

Engole e conflita
o nó preso na garganta
desmorona
em boca doce ao salivar

Braços escorrem
arrastando ombros e dedos
em onda de calor
relaxando até o pé

Que formiga
junto da barriga
acalorada novamente
onde fome toma vida

E torce o pescoço
tal qual a coruja
ao sentir o estalar
aliviado osso por osso

Mas olhar quase escuro
concordando com barulho
reticente, quase surdo
destoando ao relaxar

Da arma segue o tiro
e o trovão com o alívio
da morte ao me levar

terça-feira, 8 de junho de 2010

Transitivo do impacto da paixão à primeira vista

dias que o transito instintivo
em um não-piscar fica assim: definitivo.

Num momento o alternar entre o escuro, 
e claro demais... noutro o inferno o céu, inseguro.

Esparramado escorre mais um corpo no degrau,
dor e lamúria de um desastre nacional.

Um, dois, três passantes
logo logo sirenes incessantes.

Mas sei que passaram mais, e esse não vi,
último em memória e primeiro suspiro na UTI

Não há um dia sem ser atormentado
por haver sido atropelado.

Porque vi você, que não sorriu.
E o vidro do meu coração então se partiu.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Receita

Tomei dois sorrisos
somei uma dor
embora indeciso
tirei uma cor

Somei neologismos
formados com graça
furei silogismos
que a vida me traça

No espaço vazio
um suspiro fundo
um pouco de frio

que se derreteu
criei esse mundo
pus nome de meu

quarta-feira, 2 de junho de 2010

beBãdo

Dedos errados
tropeçam calados
neurônios engarrafados


terça-feira, 1 de junho de 2010

Indiferença

Na trama do lençol restaram teus suspiros
roupas, cheiro, batom, o sal do teu suor
no meu copo de vinho teu gosto e delírio
o som daquele disco tocando em dó menor

O tom da vida curta outrora proferido
felicidade pura que exalava de nós
agora inspira o medo perdido em teus gritos
e dá ao beijo amargo sabor de mais um pós

Jaz teu corpo na cama em sonho suspendido
desperta do cansaço da briga e da descrença
e fúria indomável do término cumprido
e o silêncio negro da minha indiferença