domingo, 30 de maio de 2010

Auto-ilusão

Ao ver-te
desejei-te
desajeitado
apresentei-me
sorrindo
respondeu-me
sonhando
imaginei-te
em mim
projetei-nos
planejei-nos
cultivei-nos
em ti
mingüei
caí
sumi

eu e nós
tu e ti

súbito
não percebi
desmoronei-me
sofri
até que vi
que abandonei-me
daí
arrependi-me
desconstruí-te
por que te quis
porque me fiz
infeliz
daqui pra frente
para sempre
negarei-te

sábado, 29 de maio de 2010

Convergência

Amanheça e lembre seu nome
com conhecimento sacie sua fome
lembre-se da vida enquanto dorme

Dote-se de paciência
fale com pertinência
escolha com exigência

Conte até que anoiteça
viva até que envelheça
dure até que enrijeça

Aprenda o que mais aprecie
deixe que o vento acaricie
água e arco-iris agracie

Dos mundos escolha o seu
dos deuses escolha um "deu"
dos lábios escolha o meu

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Inspiração e objetividade

Desliza em gotas o suor na testa
feições embaraçosas de preocupação
olhos enrugados, voltados ao que resta
de qualquer figura clara da imaginação
por onde flutuam pedras e asas
disputam espaço lírios e balas
em guerra travada por pura atenção

Visões ariscas que surgem aos montes
textos despalavrados negam as fontes
obras cubistas sem ruas nem pontes
formas disformes se atiram dos frontes

Engole a saliva envelhecida com as horas
se ao menos o quadro explicasse a saída
mas travado na mesa e pensamentos às voltas
sofre o escrutínio auto-crítico das idas
e o lápis já não escreve, desapontado
após sete parcelas de dias descontados
com com calendário de idéias não lidas

Das maçãs não distingue a madura
não se decide sobre a pintura
em que ora denota ora figura
e amassa o papel, esboçando amargura

Enquanto a aflição envolve ombros e dedos
a avião-palavra não decola
surgem barreiras, questionamentos e medos
e o tempo justo o apavora
deixa o rastro da incompetência
em um único traço após desistência
da objetividade que se demora

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Brincando de boneca

Espere!
Não se desespere...
Deixe por menos,
é só uma contradição.
Embora não seja a hora de se vingar
porque às vezes o resultado não vinga
e mesmo bonecas infláveis
nem sempre são infalíveis.

domingo, 23 de maio de 2010

Egoísmo

Não desvie teu olhar de mim,
Que sou o menino dos seus olhos,
Que sorrio, danço e cortejo diante de ti.
A quem tu deves atenção.

E só posso ser teu sob essa condição,
Porque não deve haver vida tua sem a minha,
E que não haja sorriso teu sem minhas palavras
Já que agora sou teu guia, teu companheiro

Só assim é possível alivar meu medo
de não estar presente em sua alma
Então querida, não te deixes distrair,

Nem use de desculpas para relaxar e desviar-te,
Porque nada mais é importante
Apenas eu

sábado, 22 de maio de 2010

Refém das possibilidades

De um sonho ao acordar à noite
nas suas veias estalando ao pulsar
medo trazido pelo olhar da morte
decidiu por confrontar seu azar

Em vida que parece livre e bela
percorre cada estímulo e prazer
maravilha-se a toda descoberta
somando novas coisas a fazer

Porém o horizonte é muito amplo
e há beleza nas coisas mais singelas
mas os limites ferem esse encanto

e cada dia aumenta essa ferida
não há tempo de saborear vida
quando há o amargor da morte certa

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vaidades

Como um colar de pérolas
adornando um pescoço magro
quero a ti hoje em mim

Quero que agarres às tentações,
esqueças teus receios
e te rendas aos meus encantos

Hoje serei tua droga,
a que te deixará mais importante
sem pensar em conseqüências

Farei de ti princesa
do mais belo conto de fadas
que tu há muito queres encenar

Vais substituir meu desespero
que a solidão me trouxe e
que o velho espelho insiste em refletir.

Pois estou partido e só,
a deriva em minha masmorra,
aborrecido com minha própria presença

Aceites, pois, a vir em casa
e encenar esse papel
pois o desejas secretamente

Que eu serei o cavalheiro
o maior conquistador
o sonho de qualquer mulher

Essa noite dançaremos
no palco dos nossos desejos
como duas crianças enganadas

Eu por crer
Tu por querer

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mágoa

Desespero ou desistência
raiva, dor e frustração
de onde surge a carência
e te põe nessa prisão
de um frio que não calenta
da distância que não passa
uma hora não se aguenta
e te põe em desgraça
pois não há concentração
Então desfaz o teu medo
e rasga teus sentimentos
e vence teus sofrimentos
e deixa que vá ao vento
todo aquele desalento
por culpa do teu apego

Foram feitos com cuidado
com a letra desenhada
um rascunho feito ao lado
de palavra em palavra
sílabas versos e rimas
segue a métrica bonita
com o coração partido
e o desejo de salvar
onde aquele amor perdido
talvez fosse vingar
mas agora está jogado
bem picado e espalhado
pelo vento da janela
do penúltimo andar

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desistência

Desafio-te a acreditar
Que não há amor aqui
Que os cacos de vidro espalhados
Não arrancam sangue do seu coração
Pois cada pedaço daqui
Foi concebido sob o seu olhar
Foi cultivado sob minha pele
 
Ainda que silencies tua voz
E torne tuas feições impávidas
Sei que tu sentes dor
Sei que pesa teu estômago
Então aceite finalmente
O amor que tenho a te entregar
Não o critiques nem o rejeites
 
Vem e vive e abre-te
Desfrute de meu sangue que derramaste
Mas aprenda que hoje nos ferimos
Apenas porque tu não acreditaste

domingo, 16 de maio de 2010

Sonhar-te

Sonho acordar ao teu lado
não para que ao meu pulso te prendas,
talvez por ser mais adequado
e completo que acordar só apenas.
E em lugar de um sol alaranjado
queimando minha pele em tons vermelhos
Seus olhos a me sorrirem teus apegos
e perder-me em seus dedos, cabelos e afagos

Assim me realizo
ao sentir da tua boca o calor
ao respirar-te a pele e penetrar teu pelo liso
e ao puxar seus braços e cabelos com vigor
prendendo-me aos teus desejos e vícios
instalando-me em suas rotinas e prazeres
para me amar além dos teus deveres
e guiar-te além do que tenhas visto

Sonhos teus que me iludem
em que teu cheiro me envolve em essência
e tuas pernas e as minhas se confundem
trançando minha alma em tua existência,
do frio e da distância me defendem
já que há uma certa consistência
de um projeto ainda simples de alma
a viver em eterna calma
e derramar em ti toda essa carência

Mas não! Amanhece quando não se espera
e ainda sou meu próprio ente
Mas ainda assim o desejo impera
(Fecho os olhos e vejo os olhos sorridentes
teu cabelo emaranhado em meu peito como hera
e tuas pernas entre as minhas,  inda dormentes.)
Amanheceu.  Manhã vazia.
Felicidade em sonho, quem diria!
E deixo que saia um suspiro entre os dentes

A esperança de que um dia
ao acordar tu estejas ao meu lado
e por força divina, coincidência infinita
ou talvez somente o desejo febril, de fato
tu realmente estivieres ali ainda
Não sonharei nunca mais na vida
pois já estarei sonhando acordado!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O dia

Sexta,
quinto dia, pois, já não é sóbria.

Da pressa em terminar o trabalho,
ao futuro breve de dois dias,
ou ilusão de liberdade,
que se sente dentro de garrafas alcoólicas,
e talvez cositas más...
em que se cria a inebriante ilusão de liberdade,
o prelúdio da dor-de-cabeça do sábado,
e o prejuízo moral de domingo,
registrado em fotos inesquecíveis,
e falas impróprias com razão esquecidas.


Sexta de restaurantes, bares, festas, motéis,
risos, abraços, beijos e boas histórias.
E quando não há história,
a ressaca de sábado é pior!


Não há cansaço,
apenas um desejo por vida,
de sorver cada momento
porque a vida é curta.
A vida se concentra em dois dias por semana,
e após a vida,
nada... ou trabalho, o que você preferir.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Queda-livre

Nada a fazer agora
Os pés já não tocam mais nada sólido
Nem qualquer coisa que possa servir de apoio
Os músculos se afrouxam
Tudo o que se sente, ao primeiro instante é o ar
Que passa pelos dedos das mãos abertas
E pelos braços abertos, empurrando-os para trás
Como se esperassem abraçar algo maior que o mundo
Os pulmões se enchem de ar
Assim como os sentidos se enchem de calor

Há uma sensação excitante de descontrole
Entendida pelo estômago e transformada em frio
E não há um músculo sequer tensionado
É possível ver tudo
Como se a terra fosse algo distante e simples
E como se estivesse separado do ritmo normal das coisas
É a chance de gritar incontrolavemente
E ouvir o som de sua voz ser tragado
Os olhos veem mesmo que fechados
Porque há uma clareza ofuscante de sentimentos
É uma falsa sensação de controle sobre sua própria felicidade

Não há mais preocupações, não agora...
Abandonei em meu último contato com aquele mundo sólido que ficou para trás
Conselhos, pudores, até mesmo a razão em si
Para tornar-me passageiro do vento
Para ceder à gravidade, 
À sua gravidade
E mergulhar de encontro a você

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Versos do inverso

Nas circunstâncias adversas,
em que o mundo hoje se guia,
perdemos nossas promessas
para encontrar mentiras frias.

E no calor da atmosfera,
que cozinha os pés e a terra
onde pairam aves marinhas,
caem bombas daninhas.

Comemoramos o fracasso
que há na humanidade
ao errar um novo passo
ao futuro nuclear.

Enquanto choram convidados,
para alegria do amante,
da ausência do infante
ao seu lado no altar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ausência lírica

Sem poema
Só trabalho

domingo, 9 de maio de 2010

Dia sim, dia não

Dia sim, estamos juntos,
Sou tangível, denso,
me alimento do teu olhar
derramo meu desejo sobre tua pele
Respiro teu cabelo,
Toco teus ombros,
Aperto teus braços.
Rio, choro, me parto em mil sentimentos diante do teu sorriso
sou repleto de brilho, de tua voz, de tua vida
E me acalmo ao ver teu sono
Descanso os olhos em teu rosto
Rezo pela eternidade do momento
E escorro pelos teu dedos...

Dia sim, sou vida
Dia não, sou esperança
Dia sim,sou o presente
Dia não, sou o futuro
Dia sim, me alimento
Dia não, hiberno
Dia sim, te amo
Dia não, te imploro

Dia não, sou pensamento,
sou esquálido, minguante,
sofro solitário fantasiando sobre o dia que nos veremos
Caminho seco noite a fora, atordoado,
Pela falta dos teus tratos, pelo desejo do teu cheiro
Temo a rotina distante
Sinto o vazio dos arrepios não compartilhados
E das mãos que não dormem entrelaçadas
Então capricho em meus sonhos
Cuido das memórias
Numa louca contagem regressiva

Dia sim, te inspiro
Dia não, te lembro
Dia sim, te sinto
Dia não, te quero

Dia sim, desejo que não termine
Dia não, desejo que não se perca
Dia sim, mostro como desejo que seja sempre
Dia não, balanço a ampulheta esperando que a areia passe mais rápido
Dia não que um dia não existirá mais
Deixe que dia sim venha dominar o tempo
E sendo o dia, e sendo assim, me ame até que o tempo se acabe

sábado, 8 de maio de 2010

Bate e volta

Prepare-se,
frustre-se.
Jogue
e ganhe.
Pense,
decepcione-se.
Ignore,
e seja feliz.
Ame,
separe-se.
Evite,
e conquiste.
Viva
e sinta-se parado no tempo.
Deixe-se levar
e veja o tempo passar despercebido.
Trabalhe,
sonhe com férias.
Tire férias,
sonhe com a loteria.
Ganhe na loteria,
descubra que a vida não muda muito.
Escolha A e compre,
fique pensando em B.
Fale a verdade,
seja acusado de calúnia.
Minta,
vire presidente.
Sonhe com um mundo melhor,
sinta-se impotente.
Seja egoísta,
descubra a liberdade.
Deseje,
consiga,
arrependa-se.
Determine suas metas,
chore por filmes e por músicas,
encaixe-se nos padrões,
e tenha a sensação de que metade do que fez foi em excesso,
ou que virou um escravo do consumo e da opinião alheia.
Equilibre-se na linha da vida,
e aprenda a aceitar as quedas,
porque você vai cair.
E se cair, levante-se, e tente denovo,
tudo é assim,
um eterno bate e volta.

A culpa é minha!

Volto pra casa, você
Escovo os dentes, você
Bebo água, você
Deito, você
Sonho, você

Você percebe o que fez?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ego

Ao deitar-se,
há sol sob as pálpebras
há uma inquietude nervosa tensionando braços e pernas
Há um desconforto corporal como se algum membro estivesse sobrando
E há vozes, malditas vozes sussurrando aos ouvidos.

Ruídos de pensamentos,
derivados dos ermos lapsos subconscientes.
São alfinetadas cerebrais
ou apenas o volume de informações
que o próprio cérebro despeja sobre neurônios tranquilos?

Há pecados nos ruidos,
que o punem como lembranças amargas,
porém de onde? De quem?
Não há distinção, mas sim, há um culpado.

Alguém avisou, o mundo avisou,
o mundo segue e você fica,
porque é bom ficar,
há um prazer secreto em desgarrar-se do bando.

Os sonhos não se tecem,
e a angústia aumenta.
O culpado se esconde das decisões tomadas,
dos dias que se deixou levar,
e a batalha toma força,
os ruidos aumentam,
o vazio é cheio de barulhos,
mas não vai passar.

Não vai passar...
não vai ...
não ...
...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Surpreenda-me

É como deja-vu
olhar aos olhos de alguém
decifrar-lhes pensamentos, motivações, anseios
projetar-lhes atitudes, repostas, desvios...

E se por simpatia ou silhueta agradável
espera-se o melhor de tal pessoa,
mas creia: o pior há de acontecer

Prazer amargo em vencer o desafio
e retornar do prazer da idealização
à mera realidade ordinária

terça-feira, 4 de maio de 2010

Entrega

Desamparado do meu próprio sonho
Que insiste em viver a vida alheia
E quis se agarrar aos teus caprichos
Entregando o livre arbítrio à prisão dos teus anseios

Alterno entre a servidão e independência
Porém nada se põe suficientemente forte
Para desatar os nós de tais laços
Aos quais me submeto com alegria ingênua

E ao verem esse espírito desgarrado
Questionam a natureza do trato
Afinal, para quem se dedica tanto:
ao amor ou ao ser amado?

Mas se amor presume entrega
Não deve haver cautela
Entrego tudo o que posso, sem medo de errar
E meus erros os entrego da mesma forma

Porque mesmo sendo teu refém
Não há como acertar sempre
E é algo que a ninguém cabe entender:

Hoje dependo de ti,
mas amanhã, dependerás de mim